A vida que eu sempre quis

Outro dia ela estava meio que distraída com certas coisas por fazer e na limpeza de um daqueles armários esquecidos cheio de quinquilharias que todo mundo tem em casa, achou umas fotos antigas da família toda reunida, estavam meio desbotadas; lembrou do tempo em que sorria sem razão especial porque a vida parecia mais leve e mais fácil. Mas após a adolescência, suas escolhas e seus sentimentos mudaram; acontecimentos levaram-na a buscar o sentido da felicidade, seja o tempo decorrido, o momento, ou aquele sonho acalentado levado na passagem das décadas. Nas descobertas do primeiro beijo, a sexualidade florescendo, as revoltas pueris e a primeira espinha, a pressa por viver tudo no mesmo instante. Já adulta, ela lutava pela sobrevivência e os tais sonhos ainda estavam guardados na concha mental, mas precisavam esperar um tempo ainda não conhecido.

Queria a seu jeito crescer profissionalmente, mas entre colegas dissimulados e chefes exploradores, suas ambições positivas ficavam meio que sufocadas na pilha de trabalho, no stress e na pressão diária. A família era o seu porto seguro por assim dizer, nas perdas e traumas, irmãos e irmãs meio que filhos seus, uma responsabilidade ainda presente, um dever em educá-los pra vida e no momento certo deixá-los andar com as próprias pernas. Porém em meio a tantas perdas, ela tinha se esquecido que cada um é responsável pelos próprios atos e desatinos e ela não podia estar presente o tempo todo, muito menos deixar de viver sua vida para assisti-los e auxiliá-los nas queixas e faltas.


A distancia física machuca menos que a distancia psicológica e para que continuemos gostando, seja de um amigo, de um irmão ou de nós mesmos, precisamos ter respeito no sentido mais amplo: respeito pelas escolhas alheias, respeito pelo silencio de quem nos agride e depois vai embora sem dizer por que veio. Se na escola da vida esquecemos da primeira lição que é o respeito, então vamos continuar mandando a mensagem errada seja pros amigos, irmãos ou outros conhecidos. Sem amor nada mais é verdadeiro ou faz sentido.

A vida de quem vive sua história só está completa e inteira se somos nós mesmos que tomamos as rédeas do nosso destino. Família é laço que nunca se quebra, por mais que nos machuquem, por mais que nos insultem, façam desmerecer o nosso carinho ou bem querer. Mas a família sobrevive como deve ser; mesmo que nos afastemos, até mesmo se mudarmos de continente. Seu amor próprio, sua vida profissional e sentimentos são a bússula que lhe indica o norte, o caminho a seguir.

Entre relacionamentos conturbados ou relações mais calmas, tudo era passagem, aprendizado, eram escolhas muitas vezes difíceis. Entendia hoje que o que se deseja pode ser algo real ou apenas devaneio se o que se sonha não se estrutura num objetivo concreto, uma linha reta que é traçada e onde se quer ir de um ponto ao outro. Muitas águas vão rolar, torres para derrubarmos, pontes que construímos, rios e suas correntes que atravessamos no percurso de encontro ao que mais desejamos.

A vida que se vive ou aquela que se anseia, o destino estende a sua mão cheia de promessas, cheia de verdade ou mentira, nunca há como saber direito. Medo, sim, esse velho carrasco castrador dos nossos desejos, ele nos enreda em seus laços e se não agirmos bem rápido, caimos nas suas armadilhas, artimanhas. Permanecemos na inércia e todas as portas antes abertas se fecham sem termos encontrado as chaves do nosso presente e do nosso futuro. O sonho só morre se não o alimentarmos. A vida só se extingue se não a inspirarmos.

A vida que ela sempre quis estava diante dos próprios olhos, mandando sinais, indicando rotas, pendindo para embarcar junto na aventura e naquele avião.

 

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