Todas as boas intenções

A porta estava fechada e lá fora pessoas buscando seu caminho em meio à neve que derretia após as festas de final de ano. Ele por sua vez vivia o calor incompleto, sentando na poltrona e com seu cobertor, lia uma revista de dois meses atrás com o mesmo interesse de quem lê o informe financeiro. Entre as lentes dos seus óculos um brilho no olhar, esperança para o dia de hoje, pois o futuro se constrói agora, no instante exato porque a fé não morre quando o desejo ainda sobrevive às tormentas e intempéries. Em meio aos erros de todos nós, meditava e divagava sem direção, era um vasto oceano dentro de si mesmo. Era mar, brisa, praia de todos os tempos, uma estrada para quem nunca deixa de caminhar. Era um peregrino, uma alma em busca do seu lugar, abrigo de sempre. Da janela via ainda as pessoas na sua pressa habitual e seus disfarces entre casacos e luvas, óculos escuros num dia frio de sol e vento gélido.

Assuntos outros para falar do sucesso e esquecer os fracassos que norteiam nossas vidas, mas não nos tiram da trilha. Abrir a porta naquele momento significava expor-se à tudo e à todos sem certeza de sobreviver no final. Era o seu desafio diário, como quem pega o ônibus, o bonde elétrico, o metrô, o trem ou mesmo o próximo avião. Certeza nenhuma que sobreviveremos ao dia seguinte. Há um diário,uma agenda em algum lugar da memória e é lá que mantemos vivas as boas e más lembranças, algumas nos aterrorizam como fantasmas no armário, outras nos instigam a lutar, mudar, evoluir e burilar a nossa jóia interior. O Pecado é algo tão hermético, reduzido, algo que restringe e cerceia nossa imaginação, bem, nossos deslizes, mentiras piedosas, teatro social também são pequenos pecados, é como a perda em cada ocasião dos nossos verdadeiros ideais de vida ou seja viver uma vida sem aparências nem outras exigências, algo natural, onde o ar que se respira não vem da tubulação, mas de áreas abertas e menos poluídas, onde se respira e pensa de modo mais livre.

No inferno diário ele sai do casulo e caminha na multidão, no quase incógnito, desapercebido, no cruzar do sinal, na rua, na esquina. Lá vai ele na rotina às vezes cansativa, noutras apenas um ato mecânico, necessário e habitual.

Lembra dos bens materiais tão idolatrados que falam menos quando os bens quereres ainda não encheram a sacola dos afetos passageiros, das carências nunca curadas. Ele ás vêzes se isenta da palabra e deixa o olhar correr mundo, buscar sem nunca encontrar quem lhe traga resposta, talvez um sinal de terra à vista, ilha sem Crusoé, Adam sem Eva ou ser humano sem seu igual. Pergunta-se em que boca se perde os desejos, em que prazer nos perdemos para nos achar. Mas ainda assim a ilusão cativa e seduz e sabendo do preço que se paga desde de que não seja com a própria vida, seguimos arriscando e dividindo lençóis e outras mentiras ocasionais.

O homem triste se esconde por debaixo do casaco e chega no trabalho onde as histórias já são velhas e as fofocas estão frescas como pão torrado do dia. Ele se instala na cadeira, na carteira, no cubículo onde trabalha e do seu labirinto, lá tece pensamentos e conjura o tempo para quem sabe aprender a hipnotizá-lo fazendo correr os ponteiros do relógio. Já é hora de sair, de viver a outra liberdade longe do jugo e dos grilhões de um emprego que quando não se ama nos sufoca. É hora de matar as fomes ocultas, vidas outras, silêncios impossíveis. Uma paz que ainda não saiu dos livros e dos romances e penetrou nas cavernas do seu ser peregrino.

Hoje o aviso de perigo não mais lhe assusta: cruzar pontes, abrir portas é tarefa repetida, é como dizer um não para dez sins. Somos esse alguém invisível que revida com um tapa, bofetada, um soco direto na luta pela sobrevivência. Sim, carente e constante ainda; esse homem segue em frente com todas as boas intenções.

You may also like...