Por uma outra vida

Ele costumava viver através da sua retina outras vidas. Eram pessoas que cruzavam seu caminho, no trem, na rua, no metro. Seu olhar curioso as escaneava. Intuia sabores, odores, vibrações, percorria com avidez cada detalhe, traço, expressão dos olhos, a cor , a textura da pele, os abismos dos contornos de cada nariz, volume lábiais, linhas de expressão reflexo das preocupações que nutrimos ao longo dos anos. Uma outra vida sem sair da sua. Sem conflitos aparentes, transitava entre o desejo carnal e espiritual. Era humano e passível de erros e tentações naturais. As vezes tinha seus dias de nuvens, no cinza nutria desapontamentos,decepções, mas sobrevivia e resgatava o otimismo, o sonho de algo mais, a pitada necessária para rir dos próprios receios e medos e acordar para mais um dia, numa vida construida ao longo de caminhos e muitos atalhos.

Ele sempre estava partindo como um trem que costumava ver passar da janela do escritório onde trabalhava. Era uma sensação calmante como se sua alma estivesse em cada trem que observava, em partida do vento, em cada movimento, nos sons carregados. O trem era sua metáfora favorita, uma vida embrulhada para viagem, como o primeiro passo em nome de um voo razante sem tocar na terra ou no mar. Ele divagava e na sua condição de ser vivente, pulsante, de imigrante, queria algo mais em que se apegar, mais que as dúvidas, que as aflições diárias, que simplesmente sobreviver àquela vida que escolheu na confusão dos pensamentos, no novelo do destino que desatou no instante exato em que tecia desejos outros.

A satisfação tinha emudecido com os anos, parecia brisa vinda de longe já fraca e senil. Contentava-se apenas com a idéia que um belo dia meio que distraído um sorriso perdido de um anjo travesso fosse colado na sua face e não mais se apartasse, mas não um sorriso idiota ou aparência imbecil, uma linha na face desenhando um sorriso liberto, pleno, onde alma e mente sentem-se livres para apenas descansar das lutas contínuas. Sabia que nas batalhas que lhe acompanhavam, a espada e o escudo pesavam uma tonelada, mas nem por isso esmurecia a convicção da vitória próxima.

Hoje lembrava que mudou tantas vezes de casa, de morada, de quartos, de casacos, de estados de espirito. E para cada medicina, remédio amargo, criou imunidade às desconsiderações, infamias,etc. Das supostas amizades peneirou a areia do tempo e o que restou era o que lhe cabia nas mãos, suficiente para empacotar historias e seguir em frente.

Sua tristeza não sufoca a alegria passageira, momentanea, o tédio do relógio, as dores de coluna que como agulhas envenenadas corroíam o dia. Era feliz do seu jeito. Era alegre sem explicar e era complicado e insatisfeito como qualquer um que ainda não desistiu da luta.

Em seus momentos de paz, o vazio lhe acompanhava e nele o silêncio de mil badaladas de uma catedral imaginária onde os fiéis nunca perderam a fé e as ilusões. Olhos sim olhos para as esperanças e os perdões de braços abertos, reconciliações inteiras. Por uma outra vida estava reconstruída a própria e partindo mais uma vez me busca dos seus sonhos de ontem e de agora.

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