Por todos os anos

Olhos de um castanho-escuro, clareando com os primeiros raios de sol, claridade divina, bela, simples e particular. Um gesto, uma mão sustentada no ar, certas tolices humanas, talvez um adeus a nós mesmos ou a um ente invisível, distante na inútil tentativa de comunicação. Não sabia se era sonho ou alucinação de quem bebeu no dia anteiror até alta horas com os colegas de trabalho num barzinho ordinário no centro caótico de uma capital do consumismo, ou quem sabe era apenas o abismo onde todos nós migramos, seja de férias ou como imigrantes legais e ilegais. Aquilo também era vida e era sonho ao avesso, o que não mais se contava, o que tinha exaurido as palavras e como álcool que evapora com o hálito de ontem: a boca seca, as pupilas dilatas, o braço, a cabeça de uma tonelada.

Seus cabelos ao vento como romance que começa pelo final, de encontro ao sol, ele franzia a testa na busca de um pensamento teimoso escondido não se sabe aonde entre um fio grisalho e uma calvíce já aparente. Óculos de grau quando prefere fechar os olhos para o feio que há no mundo, a fome e a morte de inocentes quando simplesmente queria ter o poder de amenizar a dor de tantos num Natal com outra luz, um Ano Novo  pleno de perdão.

Ao longo dos anos colecionamos poucos amigos e uma legião de inimigos, visitamos lugares e convivemos com pessoas, seja no trabalho ou no dia-a-dia que não se importam mais com o outro ser humano, que vivem de interesses mesquinhos e não compartilham mais, ao contrário, vivem para competir, seja pelo que for, nem que seja por um alfinete a mais na sua coleção de mesquinharias.

Assim via a vida e ainda acreditava no ano que tinha acabado de começar. Sem sair do mesmo lugar embarcamos na maior das viagens, a do auto-conhecimento. Medos, temores, dúvidas, tudo é dádiva de quem sabe despir a roupa aparente e abre a alma e o coração.

No contar das horas para um novo ano, relembramos os erros e percalços do caminho, damo-nos o direito de acariciar a alma e fazendo-a mais calma, menos agitada, aprendemos a observar as pequenas coisas que tenham um siginifica mais real, seja a natureza das naturezas: a humana e o ambiente à nossa volta.

O repousar das mãos sobre as pernas, o toque sutil no rosto, a respiração profunda e mais sentida. Sim, essa é a vida: sem suas pressas, sem suas obrigações profissionais, sem luzes de outras ribaltas, sem show para platéia que paga para ver o espetáculo. Apenas um momento para chamar de nosso, seja no cair da tarde ou na madrugda longa e fria lá fora.

Por todos os anos por nós já vividos longe da pátria, da casa dos pais, de outras histórias que registramos em fotos, em filmes, em cartas, em canções. Pelo ano que termina, que vá em paz, e pelo ano que quer nascer sem sequelas e traumas que venha sem alardes, sem fogos de artifícios que escondem os risos ou as lágrimas de quem chora com a fé de desejos vários, de anseios muitos, de perdas tantas, de amores ainda possíveis.

Feliz 2011!!!

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2 Responses

  1. 9 de February de 2012

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  2. 9 de February de 2012

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