Pontos de mutação

Sentia-se como que fechando as portas atrás de si, terminando um ciclo, emendando com outros, um turbilhão que não parecia ter fim, numa existencia conturbada por emoções e sentimentos nem sempre tão calmos, nem positivos. Sim, era a sua história de vida que como um caderno que vai perdendo as folhas e é absorvido pelas águas do tempo, rio secular, oceano a nos engolir. Trocando de realidades, uma tropical, a outra com suas paisagens de inverno, reclamando a primavera e o verão que adiam a sua chegada. Seu hemisfério não era mais nem sul nem norte, mas o hemisfério emocional como apátria que na sua condição de pertencer a dois mundos e a mundo nenhum segue sem olhar para trás, sem vislumbrar o que deixou ou o que virá.

A chuva leva os guarda-chuvas, as pessoas carregam suas sombras, e ele carrega um mundo nas costas. Seu universo pesando mais que uma tonelada, sua palavra num fio, seus sons contidos e sua ansia de uma vida nova. Ainda fazia planos e apesar do prata desenhando em cada fio timido, sua testa franse e seu sorriso mais marcado, cria luz nos olhos ainda tão vivos e cheio de quereres.

O que ele viveu daria um livro de contos singulares e iguais. Havia canções e ainda estão por lá vagando nas órbitas da sua pupila, na rima e no descompasso do seu coração. Ir ou ficar mas um pouco, quem me responde, que homem, que mulher de tantos amores e em que quarto escuro vivemos nossas dores e essa poesia invisivel a nos visitar.

Estava a meio caminho, no meio de uma ponte imaginária e abaixo um abismo de apreensões a querer engoli-lo. Entre o cruzar e o retroceder, a ponte o levaria a um outro país, a um outro estado de espírito, de alma, não sabia se a calma ansiada ou desafios mais duros de serem enfrentados.

Destino que o trouxe e quem sabe o mesmo destino que o levaria de volta ou até o lançaria a outros desafios. Como reflexo que persegue seu dono, como sombra que se arrasta nos calabouços de alguma masmorra imaginária. Entre o sonho ou o pesadelo, ele sobrevive para contar e presenciar outras batalhas.

Hoje vive seu ponto de mutação, mudanças, fases, ciclos, transtornos e ondas passageiras, turbilhão de tantas coisas, faltas e ausencias de si mesmo.

Humanos somos todos nós que buscamos uma razão a mais para viver o dia seguinte com suas dúvidas e suas contradições. As pegadas invisiveis no asfalto falam de fatos, de acontecimentos, de uma estória rasgada em retalhos desiguais, como colcha emendada, como folhetim anunciando mais um teatro mambembe: falível, risível, mas onde aprendemos a rir de nós mesmos nos momentos de crise e tensão.

Era quase fevereiro de um frio penetrante, ossos reclamando mais calor, luvas embrulhando as mãos ainda gélidas. Os pés fogem dele e na fuga deixam rastros de ontem. A palavra que liberta é a mesma que aprisiona. Labareda, fagulha, fogueira que o chama e outras vozes se irmanam. Tempo de imigrar de alma, tempo de mudar, mutantes que se perdem na multidão. Mais um caso, mais uma história que não saiu nos jornais.

Em tempos de mutação, ele acerta os ponteiros do seu relógio sempre atrasado e com uma passagem só de ida, embarca em outras aventuras de vida e de sobrevida sem nenhuma garantia, mas feliz do seu jeito tímido de ser. Feliz por ainda saber tentar e apostar em algo novo e no desafio de viver mais uma vez.

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