Partidas e fragmentos de vida

Realidade ou ficção, o certo era que ele estava indo embora. Era partida não anunciada, sem premeditação, nem projeto preconcebido em que riscos e rotas são calculados. Atrás de si não deixava nem malas, remorsos; bagagem outra que pesasse na consciência ou no bolso. Tinha deixado de pensar que era invencível para entender que nenhum erro é disperdício. Hoje vive seus dias em que há muitas partidas para nenhuma chegada.

Não havia arrependimento, nem tristeza de olhos turvos, muito menos franzir de sombrancelhas, cara de bravo ou de tolo. Entendia que toda tolice cometida era lição necessária, como lençol da semana anterior que precisa ser lavado. Tentava lembrar em quantas águas se banhou e em que rios se fez corrente em busca do mar. Muitos livros, canções, papo furado, gente que veio e que foi, gente apenas gente demais.

Sua banda toca em outro lugar, quem sabe até em outro hemisfério, quem sabe no norte ou no sul: Americas, Europas, Asia, Oceania.Em cada extremo, um ponta, um ponto, um laço desatado, um nó, um cadarço, um sapato velho que se viciou em caminhar mesmo sem direção certa. Esse peregrino parte no próximo trem. Ele está nas pontes aéreas, nos abismos invisíveis, navegando numa poesia doente, mas viva e ansiosa por uma saúde plena e melhor.

A vida como coisa grande e as pessoas como coisas pequenas. Frágil esse homem quer ser forte, e quando forte, entende o quanto é frágil e despreparado para essa existência tão efémera.

O homem que pensa, que age e reage diante dos desafios. Ele também sente frio e chora. Compartilha alegrias, saceia a fome do corpo e da alma. Saceia o beijo, reencontra o abraço, resgata o gesto e vai embora.

Hoje é o dia seguinte e aquele bilhete só de ida ainda dança no bolso do casaco. Ainda há dúvidas e esse desejo de ficar mais um pouco. O maior dos abandonos é o próprio, quando esperanças se desfazem e sua alma imigrante se pergunta o que valeu a pena ou não.

Mas para quem não o conhece suficiente, diria que nada mudou, que ele vive a rotina do mesmo jeito. Brinca e solta uma gargalhada gostosa de quem está de bem com a vida. Pois é, ele amargou desilusões e fez do feio algo bonito. Cantou e encantou gente, saltou muros mais altos e maiores que suas ambições, e se hoje ele parece um pouco cansado, não se enganem, o guerreiro está mais vivo do que antes. Talvez ele queira colo para recostar a cabeça, esquecer as urgências e meditar sobre as atitudes futuras.

Um certo dia dos seus próprios fragmentos ele fez um lindo mosaico, uma colcha de retalhos, um painel gigante, mas ainda minúsculo diante da sua história de vida. Ele é herói e fã de si mesmo. Um sujeito humilde, de gestos contidos, de fala calma, doce, grave, profunda. Sabe ouvir a todos aqueles que na pressa do desabafo esquecem de perguntar-lhe se ele também tem algo para compartilhar. Certas coisas doloridas permanecem latentes e esse homem prefere deixar as fisgadas no peito seguirem seu caminho e buscar a cura ao invés das razões para o venenos da alma.

Ele é um eterno otimista, mesmo que seu ânimo pareça às vezes corroído pela ferrugem do dia. Não lhe pergunte que partida é essa, que destino, que data, que ano ou mês no calendário. Ele não fez planos nem intenciona contar. A vida acontece como um filme de cenas cortadas, truncadas, onde vive-se ao meio e na busca de resgatar a areia que se perde da ampulheta partida. Não sei que vida é essa, que sina e que caminho sem atalho leva a todos nós a seguir em frente sem tempo para pensar.

As partidas e os fragmentos de vida nos fazem inteiros. O que se quebra dentro de nós, o que se deixa e o legado da existência após a nossa partida do planeta.

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