Outros planos iguais

Era um ano qualquer na folha do calendário, lá fora e aqui dentro sua vida pedia mudanças. Hoje ela está de malas prontas, são viagens por décadas adiadas; chances perdidas e nada mais do que se arrepender. O que não fez virou passado e se hoje urge a grande fera como um trovão: o medo, o receio, dúvidas e outras covardias naturais. Ela abre os olhos e fecha os ouvidos para certos gigantes invisíveis. A mala na porta da frente, bilhete na mão, coração em descompasso. Essa é uma viagem solitária, mas cheia de fé, fruto da garra e da vontade de fazer diferente. Nasceu como um plano B, uma alternativa de vida, um grito liberto no ar.

Seu sonho é real porque é um objetivo, algo racional, planejado com cuidado, apesar de saber que nem todas as medidas de segurança impedem as quedas e os contratempos ao longo do caminho.  Entende que o amor não acaba, ele só muda de casa; corre em outras veias, um outro tesão, uma face, um beijo roubado no escuro. As razões para ir adiante, sem olhar para trás, são mais fortes no peito e mesmo que doa, compreende que abandonar a si mesmo é mais traumático do que os abandonos de corpos onde a alma não gera mais calor.

Lê uma matéria ou artigo numa revista ou no jornal, ou quem sabe até foi uma crônica publicada na internet. A verdade é que nessa nova fase de vida tão ansiada, ela quer sair de casa, trocar de país literalmente, aprender um novo idioma e encarar desafios. Ela vive o seu momento navegando contra outras marés, sabe que ainda teme os ventos e temporais. Não quer mais olhar para trás, só para frente como locomotiva, como trem cortando espaços e paisagens. Os desastres na sua mão foram as escolhas desencontradas, erros e relações conturbadas, vicerais, nutrindo com sangue as paixões que cegaram o seu entendimento. Fugindo de uma relação desgastada para cair numa outra fadada ao fracasso.

Hoje os traumas fazem parte dos esquecimentos; o perdão vem do coração mais leve, da alma mais plena, da mente mais clara, do desejo inteiro de ser e se fazer feliz. A sua felicidade de imigrante é o momento, instante fugaz, desde o dia em que pegou aquele avião e meio que aterrizando na lua, descobriu um novo planeta, mas antes revelou seu próprio mundo de um modo mais lindo. Ela se fez mais bonita com um sorriso sincero, um olhar vivo, cheio de quereres.

Hoje Londres é a sua segunda casa, o seu canto favorito. Enfrentou todos os choques e desenrolou novelos para tecer novas histórias e aprender como sobreviver numa outra selva, em concretos frios que contam relatos parecidos. Hoje ela se sente mais mulher de corpo e alma, de auto estima renovada, como quem olha no espelho da vida e reconhece seu próprio reflexo.

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