Outras latitudes

Norte, sul, leste, oeste, onde nos encontramos e para onde queremos ir. Não há país das maravilhas, mas muitas maravilhas existem no mundo para quem tem coragem de explorá-las. As outras latitudes, mais que lua cheia deixando a cabeça virada, humor que flutua em vagas e ondas outras, olhos perdidos no horizonte ou sei lá mais o quê. Era um homem ainda jovem de espírito,  pés querendo outro chão, ele caminha descalço, entre seixos e pequenas pedras dando sabor e ritmo à caminhada. Seu estado de espírito: estar nervoso e estar calmo não sabia com que termômetro medir a pressão do ar, as nuances da sua alma e essa calma na corda bamba, como quem sai de casa e não sabe se volta para o jantar. Como quem cruza o Atlântico mesmo sabendo que nada será mais como antes. Página virada, capitulo escrito, sentença e selo, carimbo, visto, história de vários labirintos e intrincada coerência.

O sol volta ao cenário habitual, mas o cinza do dia ainda anestesia o cérebro como droga e seus humores voláteis. Ele cruza a ponte como quem precipita-se num abismo, e se tudo for apenas um filme ou piada ao avesso?. Em cada preço, em cada parcela da dívida terrena, pagamos os juros e vivemos na esperança de quitar outras prestações. Será que tudo vale à pena? Nem ele tem a resposta mais fácil nem possui bola de cristal.

Os pés na teimosia dos sapatos cansados seguem em frente como crente de que tudo pode, como profunda religião cegando os medos e libertando as loucuras santas. Ás vezes já não era mais ele mesmo, como imigrante que um dia fez escolhas profundas, mudou suas rotas e refez os contratos de vida. Assim prolongou os prazos, esticou os limites, onde existir deixa de ser tão importante para dar lugar ao sobreviver. Felicidade não é o travesseiro do lado, não é o beijo ardente ou o abraço apertado, mas essa gota no oceano fazendo a diferença na nossa existência, na nossa emoção. Essa era uma das lições por ele aprendida.

Nas outras latitudes, longe se torna perto, o antes é o agora, e todos os ponteiros estão pelo avesso das horas. Esse homem vestia o casaco porque o frio não pára de soprar aos seus ouvidos, entendia que já viramos mais uma página do calendário e que nada mudou. Projeções dos nossos projetos, seria sonho, pesadelo ou sonambulismo de quem vai ao trabalho matando a rotina que nos mata em quase todos os dias da semana. Tudo igual e com o olhar diferente. Tudo na sua frente e ainda assim distante. Ele sai de casa onde não lembra mais onde mora, que rua, que esquina da memória, papéis invertidos, é ele o casaco que veste e ou seria o relógio e seus atrasos contando as horas, que corre contra o tempo. Ele é caneta e os rabiscos no caderno, crônica para lhe fazer menos triste, ou talvez para fazer alguém mais feliz, porque não estamos sozinhos até mesmo quando o telefone não toca, quando a campainha da porta se cala e emudece seus gritos. Não estamos sós porque em outras latitudes, um dia iremos nos ver sem disfarces e sem adiamentos.

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