O chumbo dos pensamentos

Há um limite, uma regra, uma medida, um peso, sustentação para braços abertos,  resistencia, tenacidade. Caminhos de pedras, de chão, asfalto gasto, memórias da chuva, àgua, corrente, temporal. Hora de ir embora, mas para onde, pergunta o homem cansado que não se aposentou da vida. Ele varre o cais de onde um dia atracou seu barco. Ele transita no aeroporto, faxina rotineira. Ele só ele sabe quantas vezes quis pegar o próximo voo, um avião para bem longe, talvez de volta para casa, quem sabe até para alguma ilha perdida do pacífico.

Aventura que faz esquecer o pão amargo. Esse homem tem família, tem filhos, primos, irmãos e uma saudade do tamanho de um bonde. Ele também tem suas queixas e suas manias de grandeza. No nascer do dia seguinte, pernas ligeiras para a pressa dos sapatos, o terno que engole sua camisa e a gravata que aperta o nó no pescoço. Há outros sentimentos que sufocam mais e ele sabe disso, há outras lembranças que machucam, mas prefere esquecer e pegar o próximo metrô.

Nas suas lições necessárias: um novo idioma, uma tortura obrigatória de sons, graves e agudos, baixos e altos, auto-estima, gestos e expressões intencionais, aula de uma escola chamada vida. A língua como prisão sem barras, como asas de ícaro, mais alto se chega, mais perigo se corre. Se fazer entender, sobreviver, confundir, se perder e se achar e vencer, superar o próximo obstáculo. Derrubando muros com murros fortes. Era uma porta: chave, fechadura, cadeado, segredo, combinação de números, de anos, de décadas perdidas e de dívidas nunca pagas.

Nosso herói só veste seu uniforme quando vai ao trabalho; no resto do tempo é ser comum, passa incógnito, é mais um na multidão de rostos estrangeiros, todos estranhos, todos iguais. Nas manchetes dos jornais de hoje outras leis, muitas fronteiras, linha de um novelo desfiado, dando pano para manga, coversa longa, cantilena, ladainha habitual.

O aluguel já venceu, a conta ficou por ser paga, mas a dívida maior é consigo mesmo: tudo que prometeu que iria viver um dia, tudo que abriu mão em nome de um sonho, de um amor, de um alento, de um suspiro mais profundo. Correr mundo era mais que uma brincadeira de criança. Na verdade era desafio que se permite, é coragem que não se mede, é perido que nos cega para os abismos.  Hoje sabe rir de si mesmo e nem isso o faz feliz, mas também não permite que abrace a tristeza. O tempo que não possui, a pressa empurrando os dias e engolindo suas noites sem sono.

O chumbo dos pensamentos, o que parece pena sutilmente repousada sobre o ombro, a tonelada das horas, os caminhões de outras obrigações que nunca assumiu. O homem solitário vira a esquina e já chegou no seu abrigo, mas isso não faz tanta diferença, pois ainda é apenas um número na parede e um nome de rua qualquer. Entre ruidos urbanos: sons de sirene, berros, gritos, gatos desesperados na sinfonia noturna, todos pardos e perdidos.

O homem se abriga no leito, encolhe a cabeça no travesseiro e mergulha no sono leve, no suor que escorre, na taquicardia nervosa, na boca semi aberta, na aminésia voluntária, no esquecimento do dia que como seus pensamentos também são feitos de chumbo.

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3 Responses

  1. 9 de February de 2012

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  2. 9 de February de 2012
  3. 9 de February de 2012

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