Duas existências desiguais

Eram duas vidas, ele no hemisfério norte e sua alma no sul, era imigrante de outros tempos, de uma outra década, de outros sonhos pela metade. Era sol de inverno e no derreter dos humores, a neve se liquefazia naturalmente. Um novo ano e seus projetos, promessas engavetadas no armário da cozinha. A vida lia como um livro ao reverso, não havia um final feliz, nem triste, era ainda uma grande interrogação no final de cada sentença, no despertar de cada dia de trabalho.

Casacos no armário, roupas misturadas, era um capítulo revisitado. Perdão era o que ansiava; perdão pelos erros e pelos traumas ainda nutridos. Seu baú de memórias, seu relicário e seu terço partido. Uma voz, um ruído, uma sentença incompleta, uma rima, cadência de outros tempos. Brasa e fogueira ardendo no coração. Era Brasil como nunca mais seria, era Europa mutante e ele como navegante de outros rios enfrentava todas as marés que vinham. E assim passaram-se os anos e entre o que frustra e o que alivia, sua alma sorria tímida mais uma década.

Nas suas duas vidas, o que uma não conteve, a outra transbordava. O que antes era sonho, hoje era realidade mudada, transmutada, trespassada como flecha no peito. O que ainda arde e sangra, o que era trauma e hoje parece algo banal, rotina de trens, tickets, metrô, correria usual.

Uma vida ouve e capta sotaques, transe, hipnose, auto-controle, desespero silenciado. Férias de final de ano para fugir do frio e acalentar outros calores tropicais. Janeiro e fevereiro para curar a ressaca e viver mais um ano do que hoje chama realidade. Na Londres perto dos olhos e longe do coração. Amsterdã com seus certos e errados: macro e micro metrópoles. E para quem vive quase ao lado de famosas cidades, resta o delírio de quem bebe sem limites cultura, história, tecnologia desahumana.

Nas relações humanas, ele se equivoca, faz más escolhas, assume os riscos e se arrepende, mas não pode voltar atrás. Como uma estrada que desaparece atrás de si, ele segue sem tempo de se distrair com a paisagem. Se é verde ou cinza, o dia não lhe respondeu. Se era março, maio ou abril o calendário já virou a página.

O outro lado da moeda ou quem sabe da maçã, a sua alma latina fervilha na alegria de um carnaval em julho ou agosto. Verão para contar os confetis, serpentinas, em outras fantasias.

Ele era João, ela era Maria ou talvez fosse pierot e colombina, Romeu e Julieta, Adão e Eva. Paraísos esquecidos, ilusórios, perdidos talvez em algum romance ou nightclub.

Setembro e outubro folhas que caem, lágrimas que secam, alegrias e esperanças que se renovam. As duas almas sobrevivem e como uma única vida vivem milhares de histórias desiguais.

Vivemos nós os últimos dois meses para recomeçar tudo de novo sem esquecer do que nos faz humanos, do que nos faz um só.

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