De malas prontas

Aquele não era um dia como outro qualquer, ela tinha um olhar mais sério e mais forte; no seu rosto marcante, nos olhos castanhos profundos, cabelos curtos negros como todas as noites em claro maturando suas decisões. No peito algo que doía como ferida aberta, aquele amor tão doce, forte, presente e neccessário ainda pulsava; queria ter asas e carregar juntos os medos de quem amava pra bem longe. Já não tinha mais braços para agasalhar suas faltas, suas saudades antecipadas. Não entendia como encarar a separação física, a distancia que podiam rolar como bola de neve pelos anos a vir. Antes eram e desejam como uma só pessoa e os planos daquela viagem eram quase tão certos como chuva de verão no meio da tarde. Mas agora estava partindo sozinha e se tinha feito tudo certo, apoiado e incentivado por que não conseguira arrastar sua cara metade junto? Por que tantas perguntas e dúvidas e nenhuma resposta?. Que verbo ainda tinha, que palavra, que argumento para convencer no último instante, antes que fosse tarde demais.

No correr das horas e na pressa dos relógios já não sabia mais o que fazer, perdia seu norte para encontrar o hemisfério sul. Longe da zona de conforto, queria ousar, sabendo onde pisava; planejara tudo com cuidado, economizou cada centavo e estava disposta a encarar os desafios com a mesma calma de um beijo de casamento: sutil, intenso, verdadeiro e cheio de outras promessas. Tinha planos de oficializar sua união em terras de outros falares e rimas. Sua vida assim como suas esquinas, agora faziam um outro desenho, eram mais amplas e repletas de descobertas. Ela, só ela entendia suas ousadias. Nada que lhe segurasse, nem familia, nem emprego, nem o braço que queria um abraço, nem as dificuldades iniciais, nem a ponta do iceberg de outros medos e angústias, nada parava seu caminho. A fé dava-lhe as forças para apostar no sonho, pisar no chão e desbravar outras selvas urbanas.

Em meio aos pensamentos insistentes, lembranças dos bons momentos compartilhados. Ainda tinha o cheiro dos sexos impregnado no lençol de casal. Ainda sentia a mão escorrer pelo seu corpo, falando da luxuria e da verdade sem palavras, dos gestos de querer-bem. Tudo lhe movia e lhe emocionava. Ajeitou os óculos, apagou uma ruga de expressão da testa, respirou fundo e sentou no sofá como quem espera um sinal ou quem sabe uma brisa para aclarar outras idéias.

Por mais de um ano moveu céus e terras, dedicou-se ao estudo do inglês, aperfeiçoando a expressão oral e escrita, e se ainda não estava tão bom assim, pelo menos nas emergências não se sentiria perdida. Londres pra ela era tudo o que sempre quis, vida nova, novo horizonte, trabalho e estudo e outras descobertas. Tinha lido muito a respeito de tudo, mas não tinha diário de bordo pra marinheiros de primeira viagem. Sabia que devia contar com os casos e acasos, armadilhas, deslizes e derrapagens, porque toda estrada tem seus acidentes e dias de sol tem suas nuvens cinzas para nos manter sempre alertas.

Ainda com o coração apertado, pequeno e grande ao mesmo tempo. Pulsação no pseudo autocontrole, ela guarda a chave no bolso e no tilindar do metal, uma voz na sua mente diz que está fazendo a coisa certa, a porta aberta é como olhar pra trás, mas o ciclo quer se fechar para outro começar, fase de desafios, de ir de encontro aos seus sonhos acalentados por anos. Tempo de fazer as malas e embarcar naquele avião.

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