Sonhos maduros – parte três

Vozes que falam outras línguas, que comungam segredos e superam desesperos. Vozes de ontem e de hoje, onde caminhos se cruzam e palavras são trocadas em meio à multidão. Desembarco na mesma estação de trem em que me vi tantas vêzes. Ouço a minha própria voz e ela não soa como antes; parece cansada, meio desiludida, meio receosa, ranzinza em certas ocasiões, noutras apenas tímida como a brisa que não chega a aliviar o calor abafado e infernal de mais um verão europeu.

Há um som que vem de longe, talvez de casa, da falta de um acalanto materno, um som da infância, onde os problemas diários não faziam parte do meu calendário. Um sinal no céu, uma ave, um marejar de lembranças. Uma voz em mim se impacienta. Estou mais maduro, mas ainda ignorante diante das minhas ambições e dos meus limites.

Há um espelho que não ouço mais admirar. É a minha idade que me faz mais mutante, tudo parece chegar numa cascada, correm os anos e tantos foram os planos que hoje nem sei mais o que ganhei e o que perdi. Mas por outro lado sou forte, acredite, tenho sonhos, e mesmo que parecam menores, menos grandiosos como os que tive no passado.

Ainda me fazem vivo e de uma certa forma feliz. Amadurecer em pedaços soltos, como mosaico de si mesmo. Não vou conviver passivamente com as derrotas, pois sei que há um lugar no pódio da vida para quem sabe encarar um dia após o outro como uma espécie de vitória mais nobre. Sem migalhas para compartilhar, vivo meu dia mais maduro. Ainda quero o bolo de aniversário sem precisar contar as velas que enfeitam a ocasião.

Sonhos são feitos de ar, de alma, de fé, de força e de inspiração. E sei que o amor não é o que ilude, mas o que enleva, enobrece o espírito. Aprender a comungar relações, mais que corpos físicos. Ouvir a natureza e a essência de cada ser humano e espiritual. Ideais nunca morrem, sonhos nunca deixam de existir. Vejo-me em silêncio nessa sala de estar olhando a rua pela janela ampla, os sons lá fora não disturbam a minha concentração e continuo escrevendo e acreditando no dia de hoje e no dia seguinte.

Móveis, objetos vários nada significam se a história já morreu neles, é tal qual máteria que se esvai um dia como passe de mágica e permanecemos somente na memória de quem conhecemos e nos quer bem.

Acredito na esperança e nas minhas esperas; sou vencedor sem coroa nem troféu. Sou a voz que se ergue no despertar desse novo dia mais iluminado.

Ainda nutro meus sonhos maduros como fruta da estação. Sonhos amadurecidos de dentro para fora. Olhos para quem aprendeu a enxergar além do aparente, do óbvio. Viajar no sutil, na sutileza de pensamentos, sou o imigrante integrado sem desintegra-se ou perder a cultura sul americana. Sou Brasil em cada centímetro e se não levanto bandeiras é porque sei que o país que carrego no peito é grande e independente o suficiente para deixar de ser criança e promessa para o futuro e ser realidade inteira para um povo faminto por igualdade e chances iguais e mais justas.

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