Sonhos Maduros – parte quatro

Sonhos pra quem tem asas e não tem medo de arriscar, pra quem entende que as quedas são uma forma de aprendizado, e sapatos gastos pela caminhada só enobrecem as tentativas de conseguir ver sonhos transformarem-se em realidade. Mas onde os sonhos nos conduzem? Onde esperamos que eles nos levem? Onde ficamos e em nome de quem ou do que às vezes paramos no meio do caminho?

A vida nos dá as respostas, o quadro maior, o cenário, o filme onde somos diretor e ator ao mesmo tempo. Há também aquele medo de falhar, de arriscar e perder tudo. O recomeçar pode ser às vezes menos penoso do que a covardia de nunca ter tentado viver algo novo e diferente.

Não me refiro à nenhuma crise de meia idade, ou devaneio louco, mas ao sentimento verdadeiro e sincero de mutação, aprendizado humano e espiritual. Sonhos maduros são aqueles sonhos que amadurecem conosco, não apenas pela idade, mas com as experiências acumuladas. As linhas de expressão na face carregam uma carga de emoção, tensões de hoje e stress de ontem ao longo dos anos. Houve rimas e houve também o tempo de fazer planos.

Crises que abalaram a economia do nosso gigante sul-americano e fizeram muitos dos nossos anseios virarem poeira ou ouro de tolo. Mas tudo é história contada, tempo passado. Hoje é o que vale mais, o que importa lembrar e saber.

O que você ainda busca? que história quer contar pros amigos, pros filhos, netos, pros irmãos e parentes? Quer ser lembrado pela coragem de acreditar e em nome de uma fé mais resistente que os temporais foi em frente sem duvidar de nada.

Quer saber se um dia falarão de você como alguëm que superou as limitações, trocou de casa, de país, aprendeu um idioma novo, uma língua ás vezes áspera noutras somente estranha e conquistou uma vida digna e se fez digno e respeitado pelo suor que derramou e derrama ainda.

Esse alguém é você, agora, nesse exato instante em que projeta um horizonte maior, calcula e deseja uma vida e algo melhor pro presente, porque o futuro já bate à sua porta sem pedir autorização.

Sabendo ou não direito o preço que se paga quando escolhemos ser imigrantes, você sonha que talvez o seu irmão que está no mesmo barco ao lado possa esclarecer-lhe certas dúvidas, certos mistérios pra quem entra num túnel escuro ou mal iluminado nesse trem que entre curvas e atrasos logo mais chega ao seu destino, cruzando o canal, unindo terra e mar.

Você sonha mais uma vez e abrind os olhos como quem finge dormir vislumbra essa terra nova que tempos atrás a tantos outros muito prometeu e hoje vive a crise que esvazia o bolso alheio na escassez de novas vagas de emprego. Os olhos permanecem atentos, o brilho na retina vivo e a mente alerta de quem quer conquistar o seu lugar ao sol quando este resolver dar o ar da graça e vier brilhar por entre as nuvens acinzentadas dessa europa outonal.

Sonhos pra quem tem sonhos, em qualquer idade, latitude e pra qualquer bolso. Sonhávamos ser grandes, adultos, quando ainda a criança e o adolescente brincavam de viver e descobrir a vida.

A realidade é dura, as vezes numa dose maior ou menor, mas ainda assim não mata os sonhos, não aniquila a flor do sorriso, nem o amor que move e remove montanhas. Poesia, romance, novela, vida em flashes, em fatos e atos, em capítulos esparsos como folhetim, teatro de patomimas, comédia bufa, narrativa entrecortada.

Meu sonho maduro é ter a calma, talvez a sua, talvez a minha própria, pedindo menos da vida, exigindo menos do impossivel e sendo feliz com as possibilidades reais que a vida de hoje me oferta.

No revés da moeda quero também meu lugar ao sol conquistado com samba, suor e cerveja e mãos calejadas de uma vida dura, mas cheia de gratificações e bençãos. Quero apenas sonhar para acordar mais inteiro e ver aquele sonho se tornar a realidade que conquistei sem abrir mão da felicidade.

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