Solidão de amigos

A lembrança chega sem bater na porta da frente. Ela suspira aos ouvidos de quem parecia termos esquecido. A lição mais verdadeira desse estágio de vida na esfera-mãe chamada Terra é que amigos precisam ser visitados. Seja através de uma carta, um telegrama, uma nota simples no chat, um email carinhoso, um telefonema cheio de afeto puro, num cartão postal, ou simplesmente numa visita de final de semana ou num feriado prolongado. Solidão é falta de si mesmo, daquele gesto generoso, da lágrima presa, da emoção contida, da vida em redoma de vidro, no vazio de dias de sol passados em um quarto sem luz. Vagamos numa rua sem saída, ela parece não ter fim, apesar de sabermos que teremos que refazer todo o caminho de volta.

Há ainda gente humilde, gente boa e de coração inteiro, puro mesmo tendo sofrido e provado do fel de dias cinzas. Ainda com os olhos vendados o coração enxerga mais longe, não se deixa levar por futilidades, pelas falsas aparências, pelo perfume caro, roupa de marca ou falso sorriso em reuniões sociais. Solitário está quem não soube escolher suas companhias, ou quem as escolheu com segundas intenções ou visando proveito próprio. Triste fim de quem só via o que importava-lhe ver como essencial. Hoje esse ser está pobre e só, em meio à multidão de almas perdidas em si mesmo.

Quem está triste e carrega um sorriso na face como foto 3X4 na carteira. No trabalho você olha em volta e só colegas falsos encontra como se pudesse ser diferente. Selva de pedra, luta feroz pelo pão de todos os dias. Suas mãos carregam agora uma caixa cheia de sonhos e ao abria-la percebe que está vazia, mas a esperança ainda encolhida e tímida permanece no fundo dessa caixa. Façamos pois desse dia algo diferente, escolhendo outras rotas e um modo de pensar que fique entre o realista, prático e o direto, ao mesmo tempo que você ainda tem olhos pro mágico, invisível e profundo em si mesmo. Uma viola caipira imaginária entoa uma cantiga singela, fala de solidão de amigos, distancia e lembranças boas, há águas mansas que levam essa corrente de emoções várias, há também quem nada perceba e tudo sinta.

O nosso devaneio ou sonho acordado se amplia e algo no peito se contorce como um grito surdo na garganta, uma lágrima pesada rola sem receio aliviando a alma cansada. Nesse momento o tempo pára e nós continuamos a caminhada, por entre ruas conhecidas dessa cidade estrangeira, por entre praças e avenidas, em histórias de gente desconhecida que cada dia se parece mais com você. Talvez seja eu mesmo pelo avesso, no reflexo de ontem que se perdeu e no ser de hoje que ainda não se encontrou. Negamos às vezes o que vem dessa realidade ainda em nome da ilusão tardia que revolve o espírito irrequieto.

Poeira na estrada, mochila, malas como no primeiro dia quando aqui chegamos nesse lugar de vários nomes, internacional e comum. Sol sem mar, chuva sem guarda-chuva, casaco sem frio. Com as incoerências também vivemos, convivemos com o que não entendemos. Minha língua estrangeira me leva para os guetos e me tira de casa. Sinto falta do tempero de ontem, ou talvez do que se fez mais picante com os novos sabores que a vida me deu pra provar. Meu lugar, minha casa, a bagunça habitual, os livros e sons que garimpei ao longo dos anos de exílio voluntário. Abro a porta do armário e esse baú de quase tudo, simplesmente esparrama minha história numa confusão de quinquilharias. Amigos, fotos, relatos, tudo servido num mesmo prato: comida, sobremesa, memória e emoção viva.

You may also like...