Sina, sons e outras melodias

Ela, brasileira, mulher madura, bem vivida, sensual, cheia de sonhos e ambições positivas. Ela era a vida e o sonho era real. O divórcio ainda no Brasil veio no seu caminho como um fato consumado, e os tempos vividos na europa, respirando o ar refinado da França dos anos 80 impregnaram-na de uma elegancia única. Tudo agora era passado embrulhado com naftalina.

Ela vivia seu destino, e depois de mais de 15 anos nos Estados Unidos ainda tentava lidar com os castelos de areia e promessas outras que cruzaram a sua estrada. Foi o risco calculado e um baú de esperanças que a levou à terra do tio Sam, sem batucada, sem feijao ou acarajé. Essa baiana retada, usou a palavra e num ato seguro e rápido, ticket na mão e a falsa calma de quem se torna ilegal na terra dos sonhos e do mel, balela que todos imigrantes já ouviram um dia.

Mas Ela deu a cara à tapa, queria e quer ser feliz, construir uma vida nova, e quem sabe até casar por amor, sem pressa, sem idealizações. Convívio pacífico de sentimentos vários, compartilhar de carências. Sua sensibilidade feminina não se sobrepõe à sua prudência, nem ao sexto sentido. Agora tudo é história, é fato narrado, é lidar com as perdas e ganhos. Novos amigos e conhecidos no seu caminho, novas armadilhas nas relações e interrelações.

O inverno de uma cidade que nunca dorme como dizia aquela famosa música, assim é pra ela Nova York, mistura de raças e sotaques, assim é a paz ansiada que vive num apartamento minúsculo no coração de Manhattan. Seu mundo é maior e melhor e nada pode cabê-lo nem entende-lo no seu total. O bom humor nunca foi perdido, a risada larga, o abraço amigo e irmão, as lembranças da cidade de todos os santos, Salvador da Bahia, uma Bahia de todos os tambores e axés.

Essa mulher, essa guerreira sempre dando a volta por cima, nunca se queixou da sina, do que o destino lhe aprontou. Nesse final de ciclo o que lhe espera no ano que vem ainda é mistério. Talvez a volta inevitável pras tardes de Itapoã. Talvez um amor de verdade a meio caminho, ou quem sabe até a tal anistia pros imigrantes em situação irregular. Entre esperas e anseios, há seus olhos cansados da tela do computador, suas mãos delicadas meio que adormecidas de tanto digitar mensagens e entre buscas, acertos e desacertos ela vive mais um dezembro frio e cinza.

As luzes da cidade apenas anunciam mais um cair da tarde, uma preguiça no corpo, mas sem esteira de vime nem água de côco. As tardes em Itapoã ainda devem esperar muito pela sua volta. Quem nunca aposta não pode ganhar e ela quer mais é viver sem medo de ser feliz, ousar sem se arrepender.

E aprender todos os dias uma nova lição. Essa mulher, essa imigrante,brasileira e nordestina com seu sotaque cadenciado como batuque mestiço, mistura de maculelê e candomblé, essa amiga de longas datas e por muitos anos ausente do convívio, vive no coração de quem a conhece com os gestos e as recordações mais preciosas. Essa vencedora até o útlimo momento merece uma vida mais doce como o ritmo da sua voz, como o murmúrio do mar que lhe habita, como a brisa que lhe afaga o coração.

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