Pés descalços

Na passagem dos anos eu não olho mais pro espelho como antes, pois o que vejo é algo sem tradução. Não falo dos cabelos brancos,nem das rugas, nem do sorriso tímido, meio desmaiado. Falo das minhas mãos tão cheias ainda de sonhos, dos medos, dos receios, do que vejo na tevê ou nos jornais e me faz pensar no presente e no futuro. Na passagem do anos, eu sou mais imigrante do que sobrevivente ou estrangeiro. Sei que pode parecer meio confuso .

Mas é assim que me sinto ás vêzes, um pouco tendo que asumir uma identidade meio volátil, como se aos poucos assumisse uma outra forma, me enquadrasse ao sistema, ao modus viventis, ou seja lá o que for. Nos talvez e poréns da vida, entendo hoje que fazer o jogo “deles” nem sempre me faz feliz. Sentir que compreendo mais a língua e o jeito de ser dos naturais do país onde moro não me faz igual, nem me faz acomodado. Ainda guardo no bolso as pétalas de uma flor que ainda conserva no seu perfume lembranças boas, lembranças amargas, lembranças que escorrem pela face ás vezes.

Essa flor da saudade murchou , mas não morreu dentro de mim. E nos meus pés descalços ainda que pareçam estarem calçados sinto as pedras ao logo do caminho. Elas antes pareciam bem maiores e hoje são pérolas ainda sem valor. Minha alma está nua, meu espírito mais forte. Hoje não vou reclamar mais da vida , nem do tempo lá fora, nem do dia que inaugura meus pensamentos. Penso que todos os dias faço algo diferente, e mesmo que repita gestos e rotinas , ainda assim fiz algo não premeditado, mudei um pouco as rotas e encontrei um novo caminho pra me aproximar mais de mim mesmo.

Palavras jogadas as vento nunca voltam da mesma forma, palavras sem nexo ou desconexas, palavras que suspiram anseios, que norteiam caminhos, que apertam certos nós, que desatam outros laços. Assim me sinto , imigrando dentro de mim, revelando outros pólos, outras terras de ninguém. Ainda tenho as mesmas palavras ,apenas troquei de adjetivos, de verbos, de intonação. Mas ainda quero dizer o mesmo. Falar de mim, imigrante , falar dos olhos de ontem, da boca sedenta , das mãos pálidas, do sorriso ainda presente.

Diariamente nas faces, no silêncio, no gelo, no vento que não uiva, na pele que não esquenta , no calor humano que ás vezes falta do lado de fora. Vejo gente passar com suas pressas seculares, com seus hálitos , com um jeito indiferente, com seus humores mórbidos, com suas solidões, com seus egoísmos. Meu relato e meu dia-a-dia é o que sufoca e mata certas inocências que ainda vivem em mim. Meu livro de páginas soltas ainda se mistura , ainda me confunde, ainda confundo quem quer me decifrar. Nem todos os calores necesssários vem da proteção do meu casaco. Mas nos meus pés descalços enxergo sementes, frutos, e flores pra próxima estação.

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