O Indivíduo e a coletividade

O indivíduo, o individual, nunca o individualista. Amizade é singular, nunca dever ser cerceante, limitadora de gestos, de intenções boas e saudáveis. Há quem queira ver no amigo um objeto a possuir, há outros ainda que usam a amizade como arma, como mecanismo para o enriquecimento próprio. Brasileiros dentro e fora das fronteiras. Eles nem sempre são unidos, nem sempre falam a mesma língua quando se trata de agir com honestidade e ser maduro no que diz respeito a fazer amigos e ter amizade. Longe, perto, a meio caminho, amigo é filigrana, é tecer com fios de ouro a teia da vida.

Amigos nem sempre são só para as comemorações de ocasião, mas para vibrar com você, desejar o melhor da maneira mais generosa que possa existir. Amigos de verdade nos ajudam a crescer aprendendo com os erros alheios e com os próprios equívocos. Há dias, momentos, fases em que precisamos apenas da palavra amiga para dissipar aflições, desanuviar pensamentos ou dúvidas, alguém para nos ajudar a pensar e meditar sobre nossas verdades, ansiedades e indecisões. Não há nenhum dono da verdade, apesar das minhas crenças e concepções próprias, sou apenas um indivíduo comum que medita sobre tudo e sobre todas as coisas. Respeito a minha individualidade como ser humano, mas tento me irmanar na grande esfera em que habitamos.

Amigos sem confundir com conhecidos às vezes permanecem por um longo tempo sem dar notícias, talvez em certos momentos voem como aves migratórias e tenham seu tempo exato para voltar de outros ninhos. Vivendo num mundo de informações processadas tão rapidamente, às vezes nos perdemos com tantos dados, estatísticas, gráficos e suposições. E aí me pergunto: onde anda o ser humano por traz de tudo isso? Onde ficamos nós que vivemos os dramas da vida? Informação demais e contacto de menos. Ilusões outras que permeiam nossa existência.

Em pleno século 21 com tantos avanços e tecnologia, há momentos que não consigo ver o meu companheiro de viagem. Percebo no trem (comboio), no metrô, no bonde (eléctrico), ônibus (autocarro) outros seres isolados nas suas ilhas, com seus livros, audiolivros, fones de ouvido (auriculares), música alta, ou simplesmente enterrados num jornal tablóide. Seus rostos sem expressão refletem essa agrura e o seco dos dias mais frios ou talvez seja o isolamento nas grandes cidades que invade o interior, as vilas perdidas de uma europa ou nesse imenso Brasil que costumava ser mais feliz na sua simplicidade. Vejo o passar das idades e toda rima que se perdeu, uma poesia de antes que hoje vira hip hop, rap, balada, vazio, solidão de outros seres que vivem da aparência, esquecendo a essência real.

Onde vivo e onde me escondo: dois lugares iguais. Onde durmo e faço amor: dois refúgios. Onde trabalho, onde ganho o pão de cada dia: o mesmo lugar que virou rotina.
Bagagem, viagem, sonho e confissão resumem as férias vistas de dentro para fora.
Estou na multidão, sou o estranho de passos apressados e sou eu mesmo vestido com roupas de cores distintas. Meu suor e minha saliva fala do trabalho, da caminhada, do apetite por outros momentos, fome de vida a dois, da amizade que não esqueci de contar em histórias, cartas, e-mails, em gente que me esqueceu ou que me esqueci. E também nas pessoas que ainda se lembram de mim depois de semanas e meses em silencio.

Ainda estou na multidão e começa a chover. É uma chuva fina de primavera, me protejo com um casaco leve, um blazer que acabei de vestir, há um olhar novo como era antes, contraditório e instigante que lanço ao mundo, meu pequeno mundo, minha esfera verde, meu planeta sem nome, meu Eu e minha fantasia na vida real. Esse mesmo olhar analiza displicentemente esses outros seres normais e estranhos com os quais me identifico. Falar do isolamento que me faz ver o que eu sou ou o que me tornei ao longo dos anos. O fato é que na verdade cometi os mesmos erros dos outros, por supor ou achar demais, criticar ou apenas não ter opinião alguma a respeito.

Solidão na multidão, distancia preferencial: Escolhas. Pois assim como eu há aqueles que prometem fazer uma visita a um amigo, dar aquele telefonema que nunca basta, mas o que faz falta de verdade é o abraço, a conversa ao pé do ouvido, nada de festas em que estranhos e novos conhecidos se misturam, mas não se integram; ao meu ver nada disso acrescenta na amizade. Ver e falar com o amigo, olho no olho, em tempo real isso sim faz a diferença. Sem pressa, sem tempo marcado para ficar. Um final de semana sem obrigações. Deixar marido, esposa, namorado(a) em casa e ir ver o amigo num lugar neutro, tipo um parque, um restaurante com espaço para o silêncio, para um bate papo calmo, descontraído e longe dos sons urbanos irritantes.

Podemos até receber os amigos em casa, quem sabe uma jantar, um almoço, um tempo só seu, um café no ponto certo: capuccino, macchiato, café brasileiro, nem forte nem fraco, uma dose certa e sincera disso precisamos. Ás vêzes com o tempo feio lá fora não queremos sair de casa, mas se saímos queremos ir ao cinema, fazer compras, shows, etc. Por que não convidar um amigo no sábado ou domingo num final de manhã para uma visita? Por que não um gesto mais descompromissado,livre e expontâneo como um raio de sol que chega pela fresta da janela ou da porta, ou entre o movimento da cortina.
A caneta, o papel, uma carta:messagem. O teclado, o pc, um e-mail:convite. Uma linha, um telefone:calor. Uma palavra, um som: verdade. Um sorriso, um abraço sincero: amizade. Um homem e uma mulher, dois homens ou duas mulheres: família. Uma canção, um tempo: lembrança. Poesia que dá vida ao texto; crônica que embala histórias; música que cria trilha sonora; filme recontando vidas alheias.

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1 Response

  1. Rose Taylor says:

    “Ver e falar com o amigo, olho no olho, em tempo real, isso sim faz a diferenca.”

    Adorei, Bira!

    Excelente seu artigo. Sinto muita falta disso por aqui na Inglaterra, onde as pessoas preferem os meios virtuais para se comunicarem.
    Eu, que sou do tipo mais sociavel, sofro muito com isso, e sinto muitas saudades das minhas reunioes com minhas amigas em Sampa…

    Abracos, e sucesso pra voce=)