Meu voto e minha voz

Meu voto e minha voz nem sempre tem o mesmo peso. Eu, imigrante brasileiro, latino, mas por circunstâncias várias longe da pátria do samba, longe da cadência, do ritmo gostoso da minha língua nos vários sotaques e maneirismos. Um pouco saudoso, um pouco á espera , ansioso por notícias de uma pátria sem tantas diferenças sociais, injusticas, falcatruas, pactos e panelinhas políticas, onde o interesse de poucos sobrepõem-se ao que realmente a maioria assalariada anseia.
Estar longe de casa não me faz estar aparte do que acontece no meu país, não me faz estar meio que vivendo num sonho dos outros. Onde moro tenho meus desafios, outros barreiras a superar, na luta diária para engolir sílabas e sons estranhos de uma outra língua que nunca será forte o bastante para traduzir o que transpira na minha alma tropical. Viver é um ato político, nos desejos e anseios tão naturais por uma vida melhor para nós mesmos e para uma nação que já nasceu grande, mas assim como seu tamanho, outros desafios também nos acompanham,nas dificuldades diárias e problemas sociais que se arrastam por décadas.
Ser livre e ser grande é mais do que a cabeça elabora ou a voz grita mais alto, ser livre e ser independente para um país é o conceito e tradução que sai do papel e ganha as ruas, a casa de cada um de nós e se transforma em comida, educação, distribuição de renda, dignidade de quem sua a camisa, transpira em garra e perseverança e que em décadas atrás pintou a face por eleições diretas, pelo direito de sermos donos do nosso destino e contribuirmos para o presente e futuro da nossa pátria-mãe, por isso democracia já ! ainda é o nosso mote, o nosso slogan, ainda tremula na bandeira, ainda bate forte no peito.
Numa mistura de saudosismo, idealismo, curiosidade, somos agora brazukas que longe da denominação pejorativa que um dia nos deram com esse nome, somos brasileiros de todas as cores e sotaques, e nunca esquecemos das nossas raízes e do nosso país. E hoje para quem vai votar na próxima eleição ou fica na intenção do voto, vale lembrar o motivo que nos trouxe aqui e que nos faz ansiar um dia voltarmos para um país menos injusto, numa terra de possibilidades reais e igualdades plenas. Hoje minha voz e meu voto quer ser adulto, consciente, e quer fazer diferente, quer ser útil, mesmo sabendo que ainda sou mais uma gota nesse imenso oceano.

Encantamento

O que a vida nos dá
O que o tempo nos tira,
O que a espera devora ,
O que fica em aberto,
Esse livro incompleto.
Vivemos em universos paralelos,
Tão longe e tão perto.
As estradas se perdem e se encontram.
Tudo parece possível ,
Tudo parece tão mágico,
Mas o imponderável permanece.
Em que curvas do tempo você parou ?
Em que galáxias você se faz habitante ?
Que parte do meu mundo você completa?
De que lado do leito eu lhe completo ?
O que a vida nos oferta,
O que nos faz dizer sim ou não,
Que palavra essencial é essa,
Que verbo, que som ?
Onde fica minha solidão ?
Onde reside meu olhar aflito ?
Corremos o risco de não estarmos no mesmo lugar.
Convivemos com o perigo da próxima hora.
Essa curva do tempo que tudo leva,
Esse desvio que se faz mar.
Turbilhão de acontecimentos.
Viver o hoje se faz necessário,
Tudo na vida quer ter um alento.
Quero eu ter um toque mais real,
Um convívio mais sincero,
Uma historia de vida compartilhada.

Minha alma é esse guerreiro incansável, essa rima que quase por uma triz é perfeita, essa rota sem desvio, essa rua sem buracos, esse rio sem fim, esse riso sem limite, esse abraço sem medo de ser feliz. Meus versos contam histórias de quem saiu de casa pra ser imigrante , no sonho de ser feliz sem olhar pra trás , na bagagem de esperanças , no olhar do menino-homem-criança. Entre prosa e verso escrevo minhas linhas tortas , meus bilhetes, meus recados. No papel amassado da história de ontem , sei apenas que um dia tudo vira jornal, notícia. Tudo deixa de fazer sentido pra ter vida , pra ser independente.

Deixa de ser certinho, exato, pra ser verídico, suado, vivido, intenso. Assim eu quero ser lembrado, como alguém que no anonimato quis fazer diferente, tentou um pouco de tudo sem vergonha de errar e que nos erros tão humanos soube perdoar a si mesmo pelos deslizes e abismos em que se atirou. Nas prosas e nos relatos de quem caminha em silêncio por ruas sem nome, entre prédios que a história inaugurou a muito tempo, entre elevadores preguiçosos, entre trens que atrasam, nos passos apressados de quem tem muita pressa e pouco bom senso.

Eu sou um desses que no corre corre do dia se esquece de ter tempo pra almoçar ou engole a refeição como folheia uma revista sem tanto interesse. Como imigrante vivo todos os dias as diferenças e as ausências de mim mesmo, os delírios que me arrancam da realidade por alguns minutos. Como imigrante eu vibro com o carnaval, com as cores do arco-íris das escolas de samba, com o bloco que sai na avenida levando a multidão. Nas vagas , nas ondas que levam e trazem meus sonhos , vejo que meu carnaval ficou bem longe do toque , mas perto dos olhos e mais ainda do coração de quem vive o verde e amarelo longe de casa. A folia ficou na história de ontem, hoje é mais um dia cinza e frio em terras de além mar. Hoje minhas lembranças vivem entre versos e prosas que escrevo.

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1 Response

  1. Saudade é assim.

    A gente vê de longe, sonha de longe, almeja de longe… mas é saudade que alimenta a alma e traz a tona uma leitura tão agradavel como esta que você fez.

    Parabéns!

    Se cuide.

    Valéria