Memória virtual

Quantas vezes quis ele pegar o telefone, mas as prioridades outras chegavam antes. Acostumou-se à rotina, ao tic-tac de um outro relógio. Pensava na concepção da amizade, seja ela no Brasil, Holanda ou Conchinchina; quando se ganha e quando se perde não saberia dizer. Era mais um imigrante, voluntário, mas não aventureiro, como tantos outros que tinha conhecido ao longo dos anos. Sentia que de certa maneira integrara-se aos costumes de outro país, mesmo com seus olhos ainda ávidos de descobertas, ainda surpresos pelo passar dos anos.

Nas linhas de expressão da sua face, histórias vividas e recontadas. O grisalho em fios, como o mar e seu sargaço, tinha ainda um sorriso que vez ou outra vinha sem avisar, talvez pura contemplação em dia de sol, apesar do vento ainda frio da primavera européia, seu corpo franzino encolhia-se na jaqueta que o abrigava de outras rajadas. Como quem lê um livro único ou banal, corria o olho numa lista on-line, num caderno de telefones, nos contatos através de e-mail.

Esses eram os seus amigos ou conhecidos, como sobreviventes de uma mesma guerra, como seres dotados de ânsias várias; eram humanos e máquinas, olhos que não viam, bocas sem palavras. A comunicação era esparsa, vinha em meses de intervalo, vinha também num telefonema curto que dava, numa intenção de revê-los, quem sabe um dia. Esses mesmos amigos viviam suas vidas, nutriam outras amizades, quem sabe até melhores ou com mais contatos “sociais”. Sua vida transcorria sem maiores alardes, sem ter de que se queixar. Todos nós fazemos escolhas, algumas tolas, outras necessárias e outras ainda maduras, acertadas, inevitável passagem do tempo em nós: significado, intenção, maturidade.

Nascemos e morremos sós, essa é a grande verdade, a grande solidão que nos aterroriza. E não há telefone celular (telemóvel), computador, Chat, MSM ou carta que suplante, substitua a voz ao pé de ouvido, abraço, aperto de mão forte, rir e chorar junto. Amigos seria uma palavra ou uma acusação? Esse homem se perguntava onde eles andavam e onde se escondiam.

Adiar a morte, ou adiar certos encontros, só prolonga uma agonia, uma tristeza verdadeira, triste realidade dos tempos modernos. Tudo é passageiro, tudo passa como brancas nuvens se não fazemos da intenção a ação, o gesto, a conclusão de um ato que começa no pensar e desejar até o realizar, concluir.

Com passos apressados, simplesmente engolia seu lanche e pegava o ônibus, outras vezes o trem suburbano. A cidade era a tradução inexata do auto-isolamento dos outros e do seu próprio. O que via nos rostos frios e distantes testemunhava o dia-a-dia naqueles que sorriam em fotos compartilhadas no espaço virtual; mas que mundo era aquele que não cabia e não conseguia conter o seu mundo interno. Revoluções, pensamentos, erupções silenciosas. A vida como ela é como peça de teatro, como pantomima, como mambembe que somos, viajamos sem sair do lugar, viajamos para conhecer lugares e novas paisagens e esquecemos de conhecer a nós mesmos e aos outros.

Ele também era escritor, mais um desconhecido com ambições contidas, com sonhos pelos quais nunca lutava para tornarem-se reais. Seu isolamento era o abrigo dos poetas, onde compunha versos e transformava-os em crônicas pseudoconfessionais. Admitir erros e falhas não é necessariamente encontrar as respostas para consertar o que se quebrou. Ir à missa, confessar, não é ser absolvido dos pecados, se já temos a intenção de pecar de novo. Era uma memória virtual, em bytes e pulsações do coração de quem vive para contar suas histórias.

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8 Responses

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