Estação sem flores

É de manhã, é de madrugada, pensamentos, sentimentos vários que ele nem mais sabe no que pensar e como reagir; é outono de um frio constante, vento de tantos invernos anunciados. Era um estranho e hoje é mais um imigrante numa cidade de várias faces, é Londres, Nova York ou Amsterdã. Sua casa é onde hoje reside, uma proteção contra o frio e outras mazelas humanas. É a cama e seu cobertor, é o amor de mil gestos e sabores: poesia, prosa, crônica e filme em segredo. Há um apelo, uma intenção qualquer no ar. Para quem imigra como ave da estação, como gaivota solitária, mensageiro de boas novas, em sonhos intensos e em mãos com suas cicatrizes visiveis e invisiveis, há a mesma luta de quem sobrevive e ainda acredita. Ele permanece mais um ano, dois, mais uma década em terras de além-mar. Hoje em meio aos gritos abafados de um transito de carros, bondes elétricos, sirenes e buzinas insistentes. Seus passos acompanham os sapatos gastos; o dia caminha como procissão, como corrente ou rosário.

Hoje faz sol, meio que mentindo para si mesmo, a temperatura lá fora ainda não permite abrir o casaco. Há passos apressados que escorrem como rio, como cartas intermináveis para a família que ficou lá no interior de um Brasil ainda puro, sonho lindo ainda não descoberto, numa cidade com ambições de ser grande, na pele nordestina, no sotaque mineiro, manso e gostoso. Ele tem o coração curtido ao sol escaldante como sabor de sertão, carne seca, algo que escorre como raspa dura, doce cantar de saudades nuas. Mas na vida crua ele caminha em outras ruas, entre rimas e versos roubados. É  uma estação sem flores, mas cheia de fé e de histórias para contar e compartilhar.

Esse homem, essa mulher, essa criatura lidando com sensibilidades e instabilidades. O que se ouve é o silêncio,porque muda está a palavra no metrô, no ir e vir de sapatos e botas. Agora sentado num banco de praça, esse alguém comum de olhos fechados contempla o sol de quase 10 graus. Seu prazer é o momento, algo escasso, fugidio, fragmentado. Por detrás dos óculos, outras lentes, emoções e dúvidas. Ele busca uma paz de sementes, algo que se espalha para se perder de quase todo.

Esse outro lado, essa ponte, esse passo, esse sol de novembro que infiltra-se pelas frestas, escapa por entre as cortinas desavisadas, na porta entreaberta. Sol que morre ao cair da tarde, meio tonto de cansaço, bêbado, embriagado pelo torpor de desvelar mistérios humanos. Essa cortiça, esse pano, esse ato final. Seu teatro, estrelas perdidas, desejos desencontrados. O homem só, caminha para casa, a mulher meio triste meio contente segue o mesmo caminho. Estranhos que nunca se olharam, nem com olhos curiosos, nem com o coração. Seres que imigraram e nunca souberam ir além dos próprios horizontes. Solidão de almas iguais. Janela fechada para outras paisagens.

O sinal agora é verde, todos atravessam a rua, cruzam mais um labirinto na cidade de todas as vozes e sotaques. Uns escolhem atalhos, outros caminhos mais longos, mas todos querem à sua maneira chegar ao destino final. Um lugar chamado lar, abrigo. Um endereço para poder dizer onde moramos ou nos escondemos. Um número e um código postal para sermos encontrados. O ano quer terminar como começou: calmo, discreto e sem nada prometer.

É noite quase madrugada e o sono não vem. Ele lê um livro como quem folheia as páginas de uma lista telefônica, visualiza os parágrafos como quem procura respostas nas páginas amarelas. Toma um café para se manter acordado; troca os canais de tevê sem nada encontrar. Sua vida e seu mundo se resumem a um punhado de contas à pagar e vencidas.

Um sorriso se desenha no escuro, meio bobo, um pensamento, uma lembrança de algo bom na esquina da memória, onde o passado era criança e o presente se faz mais velho.

Reinventando a felicidade, mas do seu modo, em matizes e apurado gosto ao paladar. Era o casaco, o chale, o gorro para espantar o frio dos pensamentos, luvas para esquecer o adeus de ontem.  A chuva e seus guarda-chuvas. Ele já tinha comido o pão sem manteiga porque ainda assim era alimento. E na rotina, cada dia amassamos a massa e espalhamos a farinha.

Ela por sua vez, escolhera viver a moda desprovida de acessórios, máscaras e sombras coloridas.  Engoliu a vida do jeito que veio; calejou as mãos, arruinou as unhas. Trabalho duro, contínuo, mas honesto. Uma escolha nem sempre fácil.

Hoje ele quer fazer algo diferente; talvez um curso, uma nova profissão, uma outra cidade sem promessas ou um grande ponto de interrogação. Nos olhos: expressão de outras idades e no sorriso de ontem: esperança morna. Uma alegria que reside entre as sombras, mas ainda assim está viva.

A vida como uma vila dentro de uma grande cidade. Um barco num imenso oceano. O que os outros nos dizem às vezes nos causam uma expressão estranha. Como eco, como murmúrios de a muito tempo; sons resvalando no oco da alma. Palavra santa, palavra solta, sílaba quebrada, sortilégio silábico, desencanto de corais sem mar ou quem sabe apenas mais uma estação sem flores onde ainda se quer viver o dia seguinte.

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