Conto de uma vida ao meio

O olhar busca algo sem nome, talvez a dúvida dos dias vindouros, talvez uma carta que deve-se ler nas entrelinhas para melhor entende-la. A vida nunca está recontada por inteiro. Nunca está completa. O olhar do personagem em nós mesmos quer viver outras vidas menos amargas e menos banais. Vestimos as roupas de ontem disfarçadas ou envoltas em cores outras, em casacos pesados, em xales que nos sufocam. A mão, a mente, a palavra que nos escapa, a lágrima que desliza sem ser notada. Há também uma alegria do que existe de simples sem ser simplório. Dádiva e dívida de quem vive  e de quem conta sua história real. Quem imigra e quem fica; duas vertentes, dois rios que um dia talvez se reencontrem. Amizades de longe e de perto, prato cheio ou prato vazio. Gula e jejum sem traduzir outras sedes e outros desejos envoltos.

Rotina é algo que  faz-se sem dor nem rancor, nem crítica alguma. Atos e fatos processados sem questionamentos, como quando você no trabalho realiza chamadas telefonicas uma atrás da outra e não reclama de nada. Parece estar vivo e morto num estado meio letárgico, falta de imaginação, criatividade, e noutros momentos há toda uma alegria meio boba, talvez o contato na linha, a voz do outro lado, um pouco de respeito merecido.Quem sabe o dia lá fora ou talvez seu estado de espirito inesperado meio infantil, puro e ingênuo numa fração de segundo ou minutos mesmo, traz-lhe a ilusão de que tudo é bem melhor agora do que era antes. Ser feliz é uma rotina desejada, talvez não esperar demais, nem da vida nem das pessoas, talvez deixar as dúvidas e as perguntas em demasia irem em frente sem ter tempo pra lamuria-se da existencia: por que isso e por que aquilo, etc e tal.

Esse ser em todos nós quer falar, quer gritar, quer ser livre e ao mesmo tempo estar preso ao que lhe faz sentir melhor, seja amor ou seja saudade. Seja carinho ou o lençol que cobre seus sonhos e seu sono.

Esse homem ou essa mulher sente a falta do caminho que não escolheu, sente algo sutil como uma agulha que machuca sem sair do lugar, algo que dói no peito quando seus olhos se entristecem, algo sem nome, mas duro e macio ao mesmo tempo, dualidade de sabores e humores. Copo cheio, copo vazio, copo pelo meio.

O dia já termina e com ele mais um final de semana. Esse imigrante que trocou de profissão e que ainda troca para sobreviver, para fazer do suor diário o pão de cada dia, tendo com o que pagar as contas e as dívidas no final do mês. Esse imigrante não tem nada do que se arrepender ou se envergonhar, conserva sua dignidade e anda com os pés firmes no chão e a cabeça ainda cheia de sonhos e ideais. Suas rugas não falam do que não fez ou deixou de fazer, mas do que foi aprendido e ainda está por aprender. Ele é prático e emocional. Sabe que foi vivendo essa nova realidade que se arrasta com os anos é que aprendeu a não aniquilar o melhor em si, sua brasilidade e sua garra. A fé sem sem nomear igrejas, nem denominações. Portas e janelas abertas de um templo dentro de cada um de nós. Ele conta a vida como quem conta um rosário, recomeça e pára às vezes para respira mais fundo. A vida segue como rio, a vida contada ao meio.

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1 Response

  1. joana says:

    Ei Bira, adorei os seus textos. Senti como se cada frase que vc escreveu me descrevesse por inteiro. Eu acho que a maioria das pessoas que estao perdidas, fora de seus paises se sentem assim. Nao sou daqui , nao sou de lah, eh sem lugar pra onde ir. E ser feliz eh o meu cartao de identidade.