Ciclos, sóis e outras indagações

Vivo desde o nascimento a me indagar, o que é a vida e o que são os seus mistérios afinal. Como nos deciframos: que bem e que mau nos tangeia, que vela e que vida e que mar nos leva e traz. Perdido e achado, verso e prosa e outros jograis. Esse sou eu enigma e sentença incompleta. Não encontrei a palavra mais certa, o feitiço das horas que me fizesse parar de me interrogar.

Minha maré, meu mar, meus sonhos e minhas cadências. Seria mais fácil ser somente prosa se a poesia não cutucasse mais fundo meu dedão do pé. Pois é fazer o quê, a solução é relaxar e gozar.

A vida no que puder e vier, sem complicar, sem dar mole pra melancolia, pro banzo, pra saudade de coisas que não voltam ou que nunca serão como antes como dizia uma música da Elis Rainha Regina Brasil. Flor de ir embora como cantava Bethânia e Fátima Guedes: doce, dolorida e necessária saudade de coisas boas, fruta no pé, moleque cade o meu pé de moleque, meu araçá?

Hoje planto semente, flor, verso, história, meta, carreira, percurso e lanço meu barco ao mar. Oceanos de mil ventos, conceitos adquiridos e padrão desigual. Se é dia limpo ou se é tempestade não sei dizer. Está na hora de avançar, de ir em frente sem baixar a cabeça, sem deixar cair a moral. Nos meus ciclos, vivo minhas rodas gigantes, meus caracóis e ebulições emocionais. Minha língua materna me liberta das prisões que às vezes nos induzimos quando se vive vida de imigrante. Minha língua me limita quando não tenho olhos pro horizonte mais amplo à minha frente.

Minha voz e minha mente andando juntas, movendo terras, revolvendo as areais do tempo, criando castelos no ar, respirando mais puro, caminhando sem ter medo de viver. O ontem, o hoje e o que faço com o amanhã ainda não sei mas nunca deixo de acreditar. Quero a fé sem tranca , sem cadeado, sem limites, sem muito explicar. Acredito no sonho e no destino e na minha teimosia de seguir vivendo sem temer a morte, a fatalidade, a banalidade ou seja lá que nome queiram dar ao que nos acontece no caso e acasos da nossa existência singular.

Anseio ser escritor, traduzir meus delírios, sair da inércia, do anonimato talvez. Anseio escrever a vida, a minha, a sua, a nossa. Desejo saber me aceitar sem culpa, sem negações, sem me iludir com o ser humano que de tanto me decepcionar me faz perder a coragem de querer mudar, melhorar de verdade. Decepção é o que não nos fez lutar pelo diferente, pelo inusitado, pelo o que era coragem e hoje virou passado, folha amassada do jornal de ontem. Como ciclo, como ampulheta do tempo, como relógio de parede, como palavra abrindo portas, esse sou eu de novo, mais uma vez amassando o pão do dia como quem molda verbos e versos e linhas quebradas de uma canção singular e banal.

Eu, imigrante. Eu, Europa diluída em mim. Papés, vistos, carimbos, burocracia que ficou pra trás pra aqueles que carregam dois passaportes ou optaram pelo vermelhimho. Hoje vemos o Brasil azul, verde, ouro, amarelo, branco de uma paz que ainda se anseia, de uma segurança almejada. Brasil, Europa, América do Norte, Ásia, Austrália, onde quer que se vá uma semente se planta, plantou ou será plantada.

Na pureza e na verdade meu barco singra outros oceanos e alto ergo as minhas velas nessa alto-mar. Essa nave imigrante ainda respira o destino de ser alma peregrina.

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