As outras faces do imigrante

Um casaco azul escuro e branco tentava escapar da multidão matinal ao cruzar mais uma avenida, era mais um anonimo, mais um estranho numa terra estranha de mil sotaques. Seus olhos curiosos, meio que tentando decifrar os rostos no trem ou pela rua. Tentando assimilar as vibrações, quem sabe até conhecer outras vidas e aprender com elas sem envolver-se de todo. Entre o superficial e outras inquietações, ele queria outras vidas e outros mundos invadindo-lhe o espirito inquieto. Houve um tempo em que quis muito, e hoje não sabia bem que caminhos trilhava além dos convencionais, da rotina segura e afável. Com o sabor dos anos, a sua maturidade convertendo-se em algo aterrorizante; entre o fio prateado e a perda de cabelo, entre uma linha e outra de expressão que pemanecia; eternidade no espelho do banheiro pela manhã ou antes de dormir. Pupilas dilatadas, olheiras e uma noite mal dormida.

Queria olhar pela janela e saber de uma paisagem diferente, descobrir um outro caminho e destino. Suas reflexões eram a sua gruta, refúgio, isolamento do mundo real. Fama ou fome de algo mais, não sabia bem o que queria. Vivendo num mundo paralelo; cidade de outras línguas e outros costumes. Integrava-se do modo que podia. Agora caia uma chuva fina e um vento frio soprava aos seus ouvidos: uivo, gemido, lamento de almas perdidas ou achadas na confusão urbana. No ruído dos carros, no bonde elétrico e no cinza daquele dia havia uma claridade diurna entre as nuvens e palavra nenhuma lhe alcançava.

Meditava e às vezes esquecia-se de saber no que pensava. Seu barco imaginário já não remava, nem singrava esses mares internos. A calmaria significava inquietude, sombras à espreitar seus pensamentos. Ás vezes duvidava se era um homem real ou personagem de si mesmo. Caminhava a passos rápidos, apressados, meio que adormecido, dormencia no sonambulismo de uma rotina de quem vai e volta do trabalho. Tudo tão igual, mesmo sabendo que ele era a diferença das horas e dos dias de outono.

Buscava uma outra face, um desejo outro que alinhasse um novo horizonte, quem sabe uma nova cidade e suas poluições e violencia. Quem sabe uma nova forma de amar a si mesmo, aprendendo a amar a outrem. A face que se escondia por detrás dos óculos tinha sonhos e uma fé que se não era à prova das tempestades, ao contrário, nutria-se das dúvidas, mas não morria de todo. Na sua chegada à nova terra, outras promessas se fez, outros desafios aceitou. Hoje tudo era história contada, relatos perdidos e o olhar ainda faminto de quem nunca dessistiu seja do sonho ou de um amor eterno não correspondido.

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