Amor de imigrante

Ele desfiava pensamentos. Eram amores e dores sutis de quem se divide e torna-se ilhéu de si mesmo. Sua trajetória começou anos atrás e ditava hoje seu jeito de ser, seu andar e suas indagações sobre o futuro refletido no dia seguinte que traz o doce e o sal das memórias e escolhas pessoais. Sua condição de imigrante e seus amores pelo país tropical, cadenciado pela batucada no peito, repleto de fervores e desejos carnais e espirituais. A fuga e a busca do seu tom, do seu ritmo mais eloquente.

Esqueceu de quantas cartas rasgou, de quantos poemas escreveu na tentativa de extravasar emoções, frustrações, sonhos outros fragmentados ao longo do caminho. A tristeza agora dava lugar à esperança, como sala de consultório médico ou fila no aeroporto. Uma espera às vezes angustiada, noutras vezes apenas uma meditação, um silencio entrecortado por pensamentos aventureiros, nem sermpre lógicos, nem sempre razoáveis. Abraço, afago, carência desembrulhada, beijo sutil, intenção mais doce, atenção direcionada. Amor é a palavra que resvala, é o desejo que se espera.

Olhava o dia lá fora, nas gostas de chuva que cairia a pouco refletidas na janela, o som dos automóveis, uma sirene, um apito, um outro som desigual. Vozes humanas na sua individualidade; homens de caras duras quase sem expressão, crianças repetindo atos e falas de adultos. Ele via essas cenas banais, mas que eram o seu cotidiano, na sua rota de casa ao trabalho, na porta que se abria diariamente, saindo com o cão pra passear de manhã bem cedo, ainda escuro, ainda frio, ainda o mesmo ar pesado, a mente que ainda desperta. Nos dias de semana tomava seu café da manhã sozinho, perseguia o relógio e o seu badalar.

Era hora de sair pro trabalho, atravessar ruas em direção`a estação. Era hora de carimbar o seu ticket, passagem de ida e outra de volta. Alcançava as escadas da plataforma ferroviária. Não dizia uma palavra sequer. As caras de uma certa forma conhecidas dos desconhecidos que via todos os dias: homens de meia idade, jovens, adolescentes e seus fones de ouvidos, mulheres com suas pinturas pesadas na face, óculos em estilo retrô. Sentava quase sempre no mesmo lugar, e assim o trem partia, retirava as luvas e começar a ler o seu novo romance.

Seu mundo interno falava mais alto, histórias outras povoavam-lhe a mente. Ainda lembrava de como vira esse novo país tão diferente de onde veio pela primeira vez: verde, plano, menos sol, menos calor, menos rostos sorridentes. A nova língua que aprendera ainda machuca a garganta, ainda causada recusa, talvez teimosa, talvez pura criancice, mas assim do seu jeito levava os dias e seu ciclo. Houve uma época que achava que esse idioma local seria apenas mais outro no seu repertório, mas as estranhezas ainda permaneciam e sua luta para superá-las continuavam. Recordava os primeiros anos e como esse mesmo amor que lhe trouxe ajudavá-o a não dessistir de uma vida nova em terras do norte.

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1 Response

  1. 18 de February de 2012

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