A vida como ela é

Respostas para perguntas ainda mal formuladas. Esse ao meu ver é o grande dilema e barreira do ser mais que humano em mim e em você. Nossas buscas e mutações várias, assim como uma simples palavra e seus significados, suas intenções, seu leque e seu espectro. O que construímos num instante e destruímos no momento seguinte com uma mesma palavra que antes era doce e hoje é banhada do sal, do fel, do sarcasmo que destrói as relações e amizades. A vida como força que nunca seca, como rio dos sentimentos, dos sonhos que sopram as velas do meu barco, da minha jangada, humilde embarcação dos meus desejos mais puros. Ainda criança quis voar como canário e no seu canto encantar a mim mesmo: poesia singela, felicidade sem complicações e sem maiores expectativas.

Assim pensava eu que seria a vida, ou pelo menos deveria ser: luz, sol, lua, romper do novo dia, entardecer, encantar. A maturidade é uma das fases mais belas da nossa existência e ela pode chegar no aspecto externo mais cedo do que no interno e eis mais uma contradição humana. O resgatar de cada pedra do caminho, cada estilhaço do espelho que refletiu a nossa fase mais jovem,as alegrias, os nossos desejos mais intensos: mão, gesto, calor, sexo, prazer. E no outro lado da moeda esse mesmo espelho mostrou os desejos profissionais, ideais de vida, metas, lutas, fracassos e vitórias. Somos o resultado de tudo isso: as minhas noites incompletas, o que fiz e deixei de fazer. Homem ou criança ainda tenho outros sonhos, ainda tenho outras vidas pra viver.

O tamanho da casa onde habito não me cabe e não me ajuda a crescer. E como planta que se contorce num pequeno vaso de cerâmica, eu também tenho minhas raízes atrofiadas quando deixou de ousar, de correr certos riscos não calculados. A vida como ela é, mas não sei dizer o que ela me pede e o que me devolve burilado? Que trabalho de Hércules é esse? Que Ilíada? Que Epopéia? Que relato me faz parte. Simplificar minhas perguntas, saber do que m é e se faz necessário. Nunca tentar absorver mais oxigênio do que o necessário. Meus olhos cansados não explicam as suas aflições e medos, minhas mãos doloridas depois de um dia de trabalho não buscam descanso, mas outros gestos que lhe contenham e acalmem.

Sou palavra e silêncio e gritos incontidos por uma liberdade que ainda não compreendo. Ter fama ou dinheiro não e o que limita, mas também não é o que nos realiza na plenitude do humano no ser multifacetado.
A vida sempre será nosso maior enigma, nossa razão de existir e nunca deixar passar as coisas como brisa ou pó das horas num deserto que construímos ao longo da existência.
Livros, crônicas, poemas, resenhas, tratados e decretos. Todo mistério se cala para ouvir o seu silêncio. Temporal e atemporal, meu desejo me liberta e traz a vida como ela é.

You may also like...