A busca pelo dia seguinte

Era uma manhã de um novembro chuvoso, folhas esparsas nas árvores, o cinza do dia que amanhecia preguiçosamente. Ele tinha os olhos inchados por ter dormido demais, um gosto amargo na boca. Seu reflexo no espelho denunciava fartos fios grisalhos aqui e ali. Seu antigo sorriso agora deixava marcas ao redor dos cantos da boca e aquela linha de expressao de tanto franzir a testa era permanente. Aos quarenta anos, se perguntava que direção devia seguir, que rumo tomar. Foram tantas as mudanças nos últimos 15 anos na sua vida que já nem mais lembrava em quantos lugares morou: cidades, vilas e lugarejos. Hoje buscava uma nova direção dentro de si mesmo. O mercado de trabalho afunilava ao passo que os anos denunciavam-se na sua face. Não tinha medo da morte, mas do envelhecer sem qualidade de vida e dignidade. Isso sim, lhe preocupava vez ou outra como nuvem que paira sobre nossas cabeças anunciando tempestade que nunca vem quando nos achamos preparados para ela.

Amigos perdidos, amigos achados, amigos distantes. No turbilhão dos anos, havia visto e conhecido muita gente; visitou festas e também foi visitado, mas os laços ou os elos nem sempre são tão fortes para manter pessoas unidas. Coisas da vida meditava às vezes, acasos e encontros, caminhos partidos, caminhos unidos, trilhas que não levavam a lugar nenhum.

Como qualquer um que tem sonhos, sempre quis ousar um pouco mais. Sempre faltou-lhe o dinheiro, os recursos materiais, enquanto sobrava-lhe sonhos sem objetivos mais claros. Sonhava acordado aos vinte e poucos anos, sonhava e esperava algo cair do céu, talvez destino ou sorte. Mas as coisas nem sempre vem tão fácil e assim a única coisa que caiu-lhe dos céus foram os anos e os desapontamentos. Sabe, aquele desamar-se em meio às crises existenciais, à solidão, ao desamor, ao que nos inebria, vicia, mas não mata a fome da vida real. Foram relacionamentos passageiros, encontros, carícias e promessas vazias que nunca chegaram ao seu objetivo final, como cartas que se perdem a meio caminho do destinatário.

Mas tudo se  supera, tudo vai como corrente; vira rio, deságua no mar de outros tempos. Ele sabia que lembrar agora o que deixou de fazer e realizar não faria tanta diferença na pessoa que era hoje e no ser humano que ainda queria ser no dia seguinte. Sua mente devagava, fugia das coisas práticas e ao mesmo tempo implorava por um momento de paz verdadeira, sem aflições que corroem o espírito.  Pela janela vez ou outra pairava um pássaro sem nome, furtiva passagem, segundo incompleto. Havia também automóveis e suas buzinas, a sirene de mais uma ambulancia, gritos, choros de bebê no apartamento ao lado. Era vida, era rotina, era tudo tão igual ao dia anterior.

Suas buscas iam além do corpo físico, além da voz cansada, do tic-tac do relógio. Quem era esse homem, esse passageiro de tantos trens e seus atrasos? Ainda se perguntava quem era e o que lhe nutria, o que era verdade e mentira na sua vida. O que já não valia seu peso em ouro, pois somente os tolos acreditam em certos contos de fadas.

Hoje habitava em algum lugar entre América do Norte e Europa; conservava seu sangue latino nas veias, suas crenças e rituais de purificação. Um ser em busca da rota seguinte em meio a tantas perdas. Tinha coragem para acreditar sem saber de que tamanho. Era Londres, Nova York ou Amsterdã.  Era apenas alguém buscando a verdade do dia seguinte.

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